ENTREVISTA: PADRE FÁBIO DE MELO RESPONDE TUDO


Rio - Se o papa é pop, como diz um antigo refrão roqueiro (mais atual do que nunca!), o Padre Fábio de Melo não faz por menos. Em seu novo CD, ‘Deus no Esconderijo do Verso’, ele reuniu um elenco estelar da música brasileira: Nana Caymmi, Zeca Pagodinho, Fafá de Belém, Elba Ramalho, Fagner e Alcione. Ele assina dez das 14 faixas, que vão além da mensagem religiosa.
“É legal ter um padre cantando samba. Porque, se sambar é pecado, Deus queira me perdoar”, disse Zeca, que inspirou o padre a fazer o samba ‘Amigo Onde Deus É’, que lembra o socorro de Zeca com seu quadriciclo às vítimas da chuva em Xerém, Duque de Caxias, em 2013.
Além das composições próprias, Fábio de Melo completou o disco com canções de MiltonNascimento, Altay Veloso e Lenine. Em um papo descontraído com O DIA , ele não se limita a falar do CD, mas também sacramenta suas opiniões sobre amor, política, religião e até sobre o assédio feminino.


Como você se vê? Um padre, um cantor, um padre-cantor, um artista, um missionário...? 
Sou um padre que exerce funções múltiplas: também sou palestrante, professor universitário, escritor... Comunicar é o que acredito que seja o que me rege.

Imagino que muita gente seja afetada pelas suas músicas e pelo que você diz. Você se sente responsável por todas essas pessoas?
Me sinto responsável por todas as palavras que digo. Outro dia, uma mulher me abordou no metrô e disse: “Padre, você é o meu Rivotril (remédio indicado no tratamento de ansiedade e depressão).” Acredito muito na palavra. Você, com ela, pode provocar coisas boas, ou o inferno. Não quero dar receita para os outros nem me sinto melhor que ninguém, mas acho que esse é o meu desafio. Tenho consciência de que participo do processo humano de muita gente, que tomam algo que eu disse como se fosse algo seu.

Queria te perguntar sobre o amor: você acredita em almas gêmeas?
Acredito no parentesco das almas, que há almas que se reverenciam. Alma gêmea é muito forte. O encontro entre duas pessoas gera uma terceira, que só esse encontro poderia gerar. E é por essa terceira pessoa que nos apaixonamos. Eu acho que o amor é isso.

Você é chamado de ‘o padre gato’. Existe muito assédio feminino?
Às vezes, sim, sobretudo das velhinhas. Outro dia uma senhora de 90 anos botou as mãos no meu rosto e disse: “Como você é bonito. Ah, se eu fosse jovem!” Mas sou uma pessoa normal. O que me diferencia hoje é a aparência, mas até quando vai durar a jovialidade? Sei que em breve eu vou estar velhinho igual aos outros padres.

Você crê literalmente no que está na Bíblia?
Bom, a Sagrada Escritura precisa ser compreendida em seus contextos. Ou então podem achar que a Bíblia autoriza o adultério ou matar uma pessoa. Precisamos entender o que é literal e o que é metáfora ali.

A humanidade está evoluindo? Você tem esperança na paz? 
Às vezes, acho que estamos involuindo em muita coisa. Ao mesmo tempo, vejo muitos jovens com pensamentos evoluídos, anos-luz à frente, buscando construir relações evolutivas ou até uma vida mais alternativa, querendo sair da loucura que é a vida da cidade. Foi o que eu fiz, até. Eu saí do contexto urbano e voltei para o interior. Moro há cinco anos na roça. Hoje, vejo que não tem nada mais prazeroso do que levar à mesa uma alface que plantei no meu quintal. Eu morava num caixote cercado de móveis de MDF (material derivado da madeira empregado principalmente em móveis)! Acho que não tem nada mais opressor no mundo que o MDF.

O Papa Francisco é pop: não discrimina os homossexuais, fala do aborto abertamente. O que você acha dele?
O Papa fala o que as pessoas estão precisando ouvir e está prestando um grande serviço para a Igreja. Temos que abraçar também os que se sentem julgados fora. Não dá mais para tolerar a exclusão. Cantei para ele quando veio ao Brasil, tive o privilégio de apertar sua mão. Quando olhei em seus olhos, não vi um Papa, mas um homem admirável. O poder é cruel e ele estraga qualquer carisma. Mas o Francisco não, se torna cada vez melhor. Acho que Jesus está muito feliz com ele.


Você segue a cena política? O que acha do crescimento da bancada evangélica?
Se os evangélicos forem honestos, que sejam bem-vindos. Religião não é o que define o ser humano, e sim o caráter. O Congresso precisa de gente honesta, independentemente de serem padres ou ateus.

Fale sobre a escolha dos convidados especiais de seu novo CD...
Esse disco voltado para a MPB é um projeto antigo, começou na minha cabeça há uns seis anos. Eu tinha medo de convidar esses grandes nomes, acho desconfortável chamar alguém para cantar comigo, o artista pode não se sentir à vontade e ficar sem graça de recusar... Para minha surpresa, todos aceitaram de primeira, com exceção do Zeca Baleiro. Sou muito fã dele, não sei se por problema de agenda ou por não ter se identificado com o projeto, ele acabou não entrando. O Emílio Santiago também participaria, já tinha topado, mas acabou nos deixando antes.

fonte: Odia IG