Quando a pessoa perfeita aparece e a gente nem reconhece


Somos seres que foram ensinados a sonhar, mas não a materializar. Sonhamos com a casa maravilhosa, o emprego ideal, a vida sublime, a viagem impecável, o par perfeito. Essas visões são claras por 2 segundos, no terceiro já se embaçam. Por dois motivos: primeiro porque estes sonhos não são necessariamente nossos, mas foram atochados na nossa cabeça como os sonhos plausíveis. Segundo porque na grande maioria das vezes, não sabemos exatamente o que queremos e, por isso, não conseguimos nem materializar essas coisas, nem reconhecê-las quando estão bem diante da nossa fuça.
Nossa falta de clareza perturba todos os departamentos da existência. A maior razão pela qual a gente não consegue o que quer é PORQUE A GENTE NÃO SABE BEM O QUE QUER, e também não sabemos diferenciar o essencial do superficial! Isso é um grande problema, porque cada vez mais percebo que é a clareza que nos empodera: para ter a habilidade de reconhecer ou agir, precisamos saber exatamente o que queremos. Mas é a essência que realmente nos conecta e nos faz felizes, só que nosso foco está na superfície. O que você realmente deseja em um relacionamento? E quais são os fatores realmente importantes deste desejo?
Porque talvez já tenha passado bem na sua frente aquela mina que é parceiraça, esperta e seria uma grande bênção na sua vida, mas ela tinha a bunda pequena e você gosta de bunda grande. Pode ser que já tenha encostado em você no metrô aquele cara que é aventureiro, misterioso, charmoso e que quer casar, mas ele tinha barba, e você gosta de cara de bebê, ou vice-versa.
Agora que minha profissão promove um certo contato mais profundo com todos os tipos humanóides, tenho conhecido tantos bad boys com almas de ursinhos carinhosos, tantos ursinhos carinhosos com almas de Jack, o estripador, tantas paniquetes com almas de moçoila casadoira e tantas moçoilas casadoiras com almas de prostituta profana que me peguei pensando em quantas almas gêmeas não se reconhecem porque se perdem na forma, e, como é dito desde a existência de Exupéry: o essencial é invisível aos olhos. Só que o sentido favorito da nossa cultura pseudo-humana é bem esse!
Ao prestar mais atenção nisso, dois eventos recentes me chamaram a atenção: um cara que era a minha tampa estética e foi uma tremenda decepção dolorida, e um cara a quem eu provavelmente não daria abertura de conversa, por ter tatuagens em lugares estranhos, piercings agressivos e braços bombados ter sido o melhor papo que tive nos últimos tempos. De longe o ser mais profundo e cigano e com mais histórias inspiradoras com quem minhas rotas se cruzaram ultimamente. Antes que vocês perguntem, ele tinha namorada. Mas isso me fez pensar em quantos “amores da minha vida” atravessaram meu caminho eu nem enxerguei porque estava procurando o James Franco em Hollywood quando meu par ideal tá muito mais pra o tipo low profile que se aventura na selva atrás de um xamã.
Com toda a clareza do mundo, pimba, fez-se a luz diante de mim: ainda estou realmente desconectada do que é essencial no quesito relacionamentos. Talvez por isso meu cenário romântico tenha estado mais para set de sexta-feira 13.
Tudo bem, talvez esse seja o tipo de reflexão que se tem depois dos 30 mesmo. Talvez depois dos 35? Mas antes tarde do que nunca. E se eu puder evitar uns anos de tsunami amoroso para vocês, ficarei feliz. A maior verdade de todas é que a perfeição só existe nos sonhos. O único amor realmente romântico é aquele que nunca se consolidou ou que morreu antes do tempo. Todos os outros sofrem choques doloridos de realidade.
Isso porque, na vida, estamos simplesmente confusos e perdidos de nossa essência. E, aparentemente, é isso que optamos por aparentar, lamentavelmente. Se a matéria fosse a manifestação da essência, perfeita seria a realidade.
FONTEEntre Todas As Coisas