CARTA SOBRE A DESPEDIDA QUE NÃO TIVEMOS.



Oi, ________.
Quero te dizer que foi uma pena, eu ainda poderia te fazer rir das minhas bobagens, pegar as bagagens que você não aprendeu a dizer adeus, jogar tudo pro alto e te fazer, de um vez por todas, mesmo que fosse tão complicado, se sentir livre e segura comigo. Foi uma pena porque eu ainda iria te dar muitos daqueles beijos molhados, te fazer passar o dedo no canto da boca e sorrir baixinho pedindo mais. Foi uma pena porque eu queria sair outras vezes com você e muitas vezes te arrastar pra conhecer lugares que você nunca viu antes, te apresentar pra cada gente que você não conhecesse como meu novo amor e te agradecer por me fazer tão bem. Queria te levar pra longe daqui, pra uma terra sem lei, pra uma ilha sem rei, pra um mundo só nosso, entende? Eu queria te dizer que todo mundo já chorou um dia, queria te acalmar, te falar que iria ficar tudo bem comigo. Eu queria enxugar todas as tuas lágrimas e te explicar que eu não seria mais um motivo pra você complicar seus sentimentos e desconfiar dos meus. E foi uma pena, de verdade, porque eu pensava em enganar o síndico do prédio, roubar a chave da cobertura e te levar pra ver o meu pôr-do-sol. Porque eu já estava pronto pra sair de madrugada pra te ver, já estava prestes a perder o sono, a dormir depois das três conversando contigo e te ligando no dia seguinte pra saber se tá tudo bem. Foi uma pena porque eu planejava te colocar nos braços depois daqueles vinhos que eu corri até o mercado pra comprar quando você disse que viria e eu esperei você chegar. Cê nunca mais voltou.
Foi uma pena.
Foi uma pena porque eu planejava ir a sua formatura, participar do teu aniversário e ser citado no teu discuso me agradecendo todas as horas que passei ao teu lado. Esperava que você me chamasse pra falar um pouco de nós dois e dizer que você foi a melhor coisa que aconteceu nesse ano. Foi uma pena porque eu realmente queria ter me apresentado aos seus pais, cantar uma música pra você dormir, dormir contigo quando você se sentisse só, te apertar quando você ameaçasse partir. Foi uma pena porque eu estava disposto a ser pra sempre seu, a te curar, te querer, te amar e cuidar de você como sempre desejei que alguém cuidasse de mim.
Eu lamento.
Lamento porque não escrevi nenhuma carta pra você, senão essa. Porque não nos despedimos direito e até agora, não entendemos o que exatamente aconteceu com a gente. Lamento porque não consegui ver você com aquela calça que eu te ajudei a escolher, e porque tive que trocar o amor pelo teu nome na agenda, e por não mais te chamar de mô quando você me ligou pra dizer que pegaria o livro que esqueceu aqui. Lamento porque troquei o papel de parede do celular, porque exclui nossa última conversa e se alguma palavra que falei te machucou, peço desculpas. Lamento por ter que te tirar da minha vida, assim, sem querer. Lamento porque sua mãe me ligou semana passada me chamando pra almoçar com vocês e eu não aceitei. Lamento por ela pensar que foi só uma briga boba e que resolveríamos o mais rápido possível como dois adultos. Lamento porque ela insistiu nisso, pediu pra que eu ligasse pra você e disse que pediria pra você me ligar. E eu esperei. Você não ligou, eu liguei. Você não atendeu e eu entendi. Lamento porque você me ligou tarde de mais. Quando eu já nem tinha coragem pra olhar pra você, quando eu já nem tinha vontade pra te receber, quando eu já nem tinha paciência pra ouvir tua voz nem tempo pra te encontrar. Lamento por você ter esperado eu ir embora pra só agora me perceber, e por você ainda não ter aceitado nosso desfecho.
Mas agora eu posso te lembrar.
Posso te falar sobre meu novo começo e como me doeu te esquecer. Posso te lembrar daquele momento que eu não consigo esquecer, daquele beijo na testa que você me deu e aquele abraço frouxo me dizendo pra seguir a vida sem você porque você iria se virar se mim. Posso te ensinar a seguir um só caminho e pode ser aquele que eu segui sozinho quando cê disse que não queria mais me ver. Posso te explicar quanto tempo vai durar pra aceitar, e se isso for te acalmar, uma hora passa, você se cura como eu me curei. Posso te falar um pouco sobre os meus dias depois daquela despedida por mensagem, se interessar, te conto como eu sarei. Posso também deixar bem claro as coisas pra que você não deixe alguém partir por medo de arriscar porque algum ex-amor te prejudicou e você esqueceu da parte que não se poupa esforços quando se tem alguém que não poupará distância pra ficar com você. Deixo o adeus que nunca te dei e desejo que você aprenda a desviar da queda se te roubarem o paraquedas. Mas se a queda for inevitável, te desejo tempo. Desejo também que você ame alguém de verdade, mas se não for verdade, desejo que consiga se virar com as tuas mentiras. Mas se não for amor, desejo que saiba decorar o vazio que sentir. Mas se não for ninguém, desejo que você fique bem, como fiquei quando você não foi verdade, nem amor e se tornou ninguém. E que não sofra por alguém. Mas se sofrer, lembra do que fui pra você e você não foi nada. Mas se não foi nada, lembra que tive que sorrir quando você sumiu daqui. E ri ou chora, mas por favor, cresce.


Texto dê: Iandê Albuquerque