EU CANSEI DE SER MULETA DE ALGUÉM


De início, toda vez que você dizia que eu era seu porto seguro, causava em mim uma leve arritmia de felicidade. Finalmente eu me sentia realmente importante para alguém. Gostava que meu peito fosse seu refúgio, era indescritível sentir seus braços ao redor do meu pescoço apertando forte, buscando em mim apoio para se manter de pé a despeito dos seus problemas. É trágico como, às vezes, a gente fica orgulhoso de si mesmo sendo a muleta de alguém.

O tempo, no entanto, me fez descobrir um significado triste nesse termo. Percebi que era refém do sentimento fantasioso que tenho por você. Não importava o que você fizesse, meus braços não conseguiam estar fechados quando voltasse. Já perdi as contas de quantas vezes prometi a mim mesmo que não estaria mais aqui à sua espera. De quantas vezes já marquei um encontro com a primeira bola verde que eu vi, só para desmarcar quando você voltava e atracava no meu coração de novo.
Meu meu colo parece ser seu por decreto uma alguma divindade sádica. Eu sei e você também sabe que, aconteça o que acontecer, eu vou estar aqui para você. Não sei se é essa minha mania de consertar coisas quebradas, alguma esperança sem sentido ou algo pior, como amor, mas independente do que for, é isso que me faz estar aqui vendo o mundo passar, empedrado.
Você foi embora. Outra vez. E outra vez ficou aqui dentro esse vazio que tem exatamente as suas medidas. Amar você é uma guerra perdida que eu continuo lutando por teimosia. Cada dia fica mais clara a triste verdade entre nós dois: o barco parte, o porto fica.
Mas dessa vez não vou atrás de você. Não como nas outras vezes. Não como sempre foi. Cansei de te carregar nas costas, de ficar estático com os ombros parados pra te manter confortável. Dessa vez, você vai ter que aprender a andar por conta própria porque eu, bem, eu me cansei de ser muleta de alguém.
FONTEEntre Todas As Coisas
TEXTO DEDouglas Cordare