Tatuar-se é pecado ou.. “depende”?

Artigo de opinião Reproduzido do Blog Carmadélio (Comunidade Shalom)

A posição do autor deve ser entendida como interpretação da passagem bíblica de Levítico.
O uso de tatuagem hoje extrapola o sentido idólatra do A.T. Extrapola mas não o nega porque HOJE também existem tatuagens de origem e motivação ocultista, sexista, nazista, pornográfica e mesmo como “marcação” corporal de pactos com demônios.Tem de tudo! Da bonita a horrível, da tribal a “inocente” borboleta.
Ou seja, Tatuagem é pecado?? Bem…depende da tatuagem e da motivação de quem a usa.
O artigo abaixo só “peca” ao não citar que existem “tatuagens” e tatuagens.
Por Carlos Ramalhete
Alguns hoje, para condenar as tatuagens, citam Lv 19,28.
Evidentemente. Os próprios judeus reconhecem isso, aliás. O sábio judeu Maimônides (freqüentemente citado por S. Tomás como autoridade em assuntos judaicos, aliás; S. Tomás o chama “Rabi Moisés”, por ser seu nome hebraico Moisés Ben-Maimon) escreveu no Livro das Leis sobre a Idolatria da Mishné Torá (editada em português pela Imago, ISBN 85-312-0226-4; os números de página se referem a esta edição):
“É proibido seguir os costumes dos não-judeus ou imitá-los (…), como está escrito: ‘Não seguireis os costumes das nações’ (Lc 20,23), ‘Não seguireis suas leis’ (Lv 18,3), e ‘Acautela-te para que não te deixes seduzir a segui-los’(Dt 12,30). Todos estes textos referem a um tema e alertam contra a sua imitação. O judeu, ao contrário, deve diferenciar-se deles e ser reconhecido pelo modo de se trajar e por suas outras atividades, assim como está separado deles por seu conhecimento e seus princípios. E assim está escrito: ‘E Eu vos separei de todos os povos (Lv 20,26).” (XI,1, p. 248)
“A tatuagem, mencionada na Torá (Lv 19:28) (…) era o costume dos ateus que costumavam marcar a si mesmos para a idolatria, e dizer que o tatuado era um escravo vendido ao ídolo e marcado para o seu serviço.” (XII,11 – p. 254)
Esta lei cerimonial, como aliás todas elas, tem um sentido simbólico: ela serve para evitar que se confunda o judeu com um idólatra. O seu equivalente hoje em dia seria, por exemplo, uma proibição às católicas de andar vestida de mãe-de-santo, com turbante, roupas brancas e colares coloridos de  “guias”.


Mesmo isso, contudo, não existe. Não existe por uma razão muito simples: a
Lei de Moisés é uma lei preparatória, uma lei que serve para conduzir a Cristo, que já veio! Na Nova Aliança não temos este tipo de lei, pois o seu papel (ensinar que há diferença entre o Deus verdadeiro e os ídolos, etc.) já foi mais que cumprido. Querer cumprir este tipo de lei preparatória é como querer que motocicletas tenham rodinhas do lado, como as bicicletas de criança.
Além da falta de senso da Fé de quem sequer cogita seguir uma “proibição”  dessas “porque tá na Bíblia” (uma Bíblia não deveria jamais ser deixada ao alcance de alguém assim despreparado, aliás), isso pode levar a um pecado gravíssimo: o puritanismo.
O puritanismo moderno é oriundo de algumas seitas inglesas (que perturbaram tanto a paciência de seus conterrâneos que foram expulsos para a América; são os “peregrinos” que chegaram aos EUA no barco Mayflower), mas a tendência ao puritanismo é uma tendência comum de nossa natureza marcada pelo Pecado Original, e deve ser duramente combatida.O puritano acha que é “santo”, que tem “as regras”, e não só segue estas regras à letra (a mesma “letra que mata”, aliás), como fica atazanando a paciência de quem não as segue e acusando de pecado tudo o que, em seu puritanismo, ele resolve que é. Este erro é especialmente perigoso por ser ao mesmo tempo um pecado pessoal gravíssimo e um incentivo ao pecado nos outros. O puritano não se cansa enquanto não faz os outros se sentirem culpados por coisas que não são em absoluto pecaminosas (o que já é meio caminho andado para tornar-se outro puritano), e se compraz em sua idéia de ser mais santo que os outros.
É exatamente isto o que ocorre com tatuagens, também, ou com qualquer outra maluquice que os puritanos vejam com maus olhos (como, sei lá, cabelos pintados de azul). Os judeus não tinham tatuagens por uma razão muito simples: eles estavam aprendendo a separar certo e errado, estavam aprendendo a não ser idólatras em um mundo em que o monoteísmo só existia ali, com eles. Os idólatras usavam tatuagens? Então os judeus não usavam. Os idólatras usavam cavanhaque? Então os judeus não aparavam os cantos da barba. Os idólatras faziam isso ou aquilo? Então os judeus não.
Não se tratava de atos maus em si, apenas de atos que traziam um significado
diferente aos olhos de quem estava em torno (“tatuagem é coisa de idólatra; este tatuado é judeu, logo é possível ser idólatra e judeu ao mesmo tempo”). É exatamente a mesma coisa que faz com que nenhum de nós, por exemplo, se precisar jogar fora algumas velas, pratos de barro e restos de comida, não
vai fazer uma obra de arte moderna na encruzilhada: todo mundo que passar
vai ter certeza de que o que se está fazendo é macumba!
No caso dos judeus, eles estavam aprendendo o que para nós parece óbvio (ou alguém aqui anda vestido de mãe-de-santo só porque acha chique o turbantão branco?), e por isso Deus precisou especificar uma montoeira de regrinhas,  que se fossem hoje incluiriam não usar turbante branco com colares coloridos. Tomar isso fora de contexto para substituir gostos e repulsas por um padrão do que é certo ou errado é um erro gravíssimo.
Como explicar isso de forma mais completa para os que condenam tatuagens?
Mande-os guardar a Bíblia no fundo do fundo do fundo mais fundo de uma gaveta trancada e não chegar perto de novo antes de ter lido, estudado e entendido o Catecismo inteiro mais todos os documentos citados nas notas de pé de página e a Suma Teológica inteira. Ah, e um bom tratado de Teologia Moral. Alguém capaz de condenar tatuagens em nome de Deus, mais ainda apelando a uma tremenda incompreensão da Sagrada Escritura, seus fins, sua história e seu uso, decididamente não é católico. Colocar uma Bíblia nas mãos de alguém assim é como dar uma coleção de giletes a uma criança pequena.

via: Catholicus