Amor simplesmente acontece

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Ela insistia em estar com alguém que sabia, e já havia enumerado centenas de vezes os motivos, não era quem precisava. Não era ele quem ela vinha esperando, nem por quem tinha se poupado tantas vezes de começar relações por achar que não valessem o esforço. E mesmo assim, ela tentava porque, no fundo, em noites adentro enquanto todos dormiam, libertava o sonho infantil de que conseguiria fazê-lo mudar ou ser aquela por quem ele gostaria de tentar.

Afinal, quem não se orgulharia de ser responsável pela transformação de alguém? Por colocar sua vida nos eixos, por iluminar os seus dias? A verdade é que todos querem se sentirem especiais para outro, únicos e até inesquecíveis. No entanto, nem todo mundo marca sua memória de uma forma positiva e, às vezes, a insistência rouba a cena do merecimento e ambos terminam por se saturar de uma relação que nem teve a chance de funcionar.

Ela devia, acima de tudo, conhecer seus próprios limites e até onde se dispunha a ir por ele. O amor não é essa inconsequência assídua de atitudes e palavras que um beijo ardente justifica, muito pelo contrário. É comedir suas inseguranças sem menosprezar suas próprias prioridades. Se alguém lhe faz sentir que anda pondo de lado quem gostaria de ser, o que poderia ter e onde queria estar, então, você pôs essa pessoa a sua frente. Não cede a si mesmo de mão beijada a toda oportunidade e acha que isso é amor porque não é. É só mais uma forma de submissão.


É claro que suas necessidades mudariam com o tempo, assim como já haviam mudado desde que se apaixonara pela primeira vez. Ela sabia disso, e talvez essa fosse a força de sua motivação pra continuar em uma relação abusiva. Mas a mudança não acontece quando nós achamos que deva, cada qual tem seu próprio relógio biológico que tiquetaqueia de acordo com suas prioridades. Por mais que ela se esforçasse pra entender o tempo dele, a cada dia perdia mais tempo de si mesma. Era vencida pelo cansaço.

Acontece que não somos nós que determinamos nossa importância na vida de alguém. Não temos o direito de interferir no sentimento alheio. Tem gente que simplesmente não vai gostar da gente, e tem gente que vai gostar de graça. Vida que segue. O importante é que por excesso de querer não fiquemos à margem das escolhas de outros. Pessoas mudam quando são motivadas por outras, é claro, mas isso quando se permitem mudar. A gente não pode se frustrar por tentar ajudar quem não quer ser ajudado, a verdade é essa. Até porque o que nós entendemos como o melhor para ela pode ser que não seja.

A questão é que se você decidir persistir, se valorize em primeiro lugar. Não se culpe se não for correspondida à altura, não tem um manual sobre o certo e errado numa relação. Amor simplesmente acontece. O esforço é grande, porém qualquer peso dividido por duas vidas se torna sustentável. Mas saiba, sobretudo, o momento de desistir. Quem não aceita seu próprio desfecho não enxerga a chance de um recomeço.

Eventualmente, ela aprendeu que era única mesmo solteira, e ele só mais um como namorado.

Via: Bendita Cuca