Não foi amor, foi apenas você.


 

Você não tinha que gostar de mim, agora eu sei disso. Mas na época, eu achava que merecia porque eu estava páginas à frente numa história que insistia em chamar de nossa. Em parte, a culpa foi minha. Eu vi você chegando distraído, andando arrastado, dizendo bobagens e achei que estivesse procurando por mim. Mas você não estava, não é? Estava à toa, enquanto eu me procurava em cada troca de olhar. Sempre fui o exagero em pessoa; fiz do teu sorriso canto, do teu beijo prosa e do teu cheiro minha paz. Em pouco tempo, eu precisava de você. Ou era isso que eu achava quando prendia o ar com sua ausência. Ou evitava lugares em que não corresse o risco de esbarrar em ti.
Não posso negar que fui alertada. Quanta gente me disse pra não me envolver desse jeito, mas confesso que nunca entendi bem que jeito era esse. Eu achava que era normal, aliás necessário, se entregar, se doar por inteiro, estar disponível, mostrar interesse. Que se todas as pessoas fossem assim, os casais seriam mais felizes e as relações mais duradouras. Mas a verdade é que ninguém quer se apaixonar pelo próprio espelho. A gente procura quem nos estimule a crescer, quem nos desafie. Quem seja mais do que reflexo, movimentos ensaiados, poesias decoradas, romantismo forjado. No fundo, a gente nem sequer quer alguém perfeito, mas quem aceite nossas falhas e esteja tão disposto quanto nós.
Estou me sentindo bem. Juro. Você não deve acreditar, eu sei. Eu te prometi muitas coisas, inclusive, um tempo que não tinha para fazer você ficar. Mas se você não ficou, quanto me sobrou dessas promessas, afinal? Eu fui o resto, fragmentos doloridos de uma história incompleta. Eu fui a insônia de me perguntar se a nossa cama já era de outra ou mais. Eu fui a dúvida da desistência contra a persistência. Fui também ao avesso todas as vezes que te vi passar por mim e me cumprimentar com um aceno. Muitas vezes, também fui ao inferno quando soube de seu paradeiro sem que houvesse perguntado. Fui dilacerada, fui cacos. Fui você; seguindo seus passos, cantando suas músicas, decorando sua rotina.
Mas isso não era jeito de viver, sabe? Onde eu estava enquanto cada parte de mim te procurava? Precisei me resgatar, precisei me acordar desse pesadelo contínuo de que ninguém mais poderia me fazer feliz. Eu podia. Aliás, eu posso. E quer saber? Eu me faço como você nunca pôde. Eu sei do que eu preciso, eu ajo de acordo com minhas vontades. Tomo sorvete sem ninguém, vou ao cinema, uso minissaia. Eu sou livre, sou minha.
Para o amor nunca houve caminho certo, agora eu sei disso. Mas na época, eu achava que andava ao teu lado. Hoje, eu sapateio na corda bamba entre a razão e o coração. Às vezes, me deixo de lado, me contradigo e me perco. Contudo, respeito meu próprio espaço, rio dos meus erros, aprendo com meus percalços. Então, se me vir por aí, não se engane, é só minha liberdade que, às vezes, se parece com loucura. Descobri como estar acompanhada da melhor companhia sozinha: eu mesma. Só preciso olhar no espelho que me vejo onde antes só via você. Eu estou bem, é sério. Você não deve acreditar, mas sua opinião não limita mais a minha.