Um amor não cura o outro.



A ansiedade sempre foi meu calcanhar de Aquiles. O que quer que não fosse como eu gostaria era engolido por uma avalanche de palavras que resumiam um afogamento sádico de “foi melhor assim”. Quem, além de mim, poderia me convencer disso, afinal de contas? Eu procurava conforto nas estatísticas em que os outros se expunham e me esquecia que nem toda margem de erro é rasa.

Seguia à risca o ditado que dizia que um amor curaria o outro. Emendar o coração era melhor do que espera-lo sarar, principalmente para mim que nunca soube lidar com o tempo. Eu tinha pressa. Preocupava-me tanto com o futuro que meu presente se tornava passado em uma fração de segundos. Era presunçosa demais para frases de autoajuda e covarde demais para admitir. Como resultado, me forçava a ter relações que não me pertenciam com um modelo aprimorado de felicidade pairando sob meus planos. Eu pensava saber o que estava fazendo e que meu equilíbrio emocional caminhava na mesma velocidade dos meus passos largos.
Não vou mentir, depois que você se acostuma a ter alguém, encarar a vida sozinha é enxergá-la unilateral. Meio cinza, meio termo. Você sente falta até mesmo de ter quem teime e discorde contigo. E a primeira sensação pós-término não é tão libertadora quanto dizem. Eu andava pela rua à espera de quem recriminasse minha roupa ou me mandasse dobrar à esquerda (quando eu tinha certeza que devia ser à direita), e não tinha menor ideia do que fazer com tantos pensamentos aleatórios que não podiam mais ser compartilhados.
Eu me sentia vazia porque acreditava que todo relacionamento era uma espécie de posse de personalidade, gostos, opiniões. Sem eles, eu nada seria. Então, o quanto antes, tentava outra vez. Importava-me tão pouco com quem eu estava que não conhecia a ele ou a mim mesma, mas já havia perdido o controle. Eu tinha pressa, e não sabia a hora de parar. Atropelava todo descontentamento a dois com a certeza de que tudo – e qualquer coisa – era melhor do que ser um. Relutava em acreditar que um coração inteiro se faz em milhares de pedaços enquanto eu pudesse driblar o sofrimento.
Não sei dizer em que momento cruzei a tênue linha do cansaço sob o medo, mas eu já não suportava me procurar em outros corpos. Parada em frente ao espelho, só o que eu via era desespero. Se doar sem vê a quem não é o mesmo que ceder por alguém. Um, nos divide. Outro, nos multiplica. O tempo deveria passar em mim, e não por mim, porque independentemente dos obstáculos o amor costuma vir para quem decide ficar. E se tem uma coisa que ninguém pode fazer por ti é a sua parte. Não adianta se perder em tantos abraços, atar nós e desfazer os laços se ainda alimenta expectativas em sentimentos efêmeros. Se nem você sabe onde está, como espera que o amor lhe encontre?


Ando com a saudade de um lado para me lembrar do que foi bom e a solidão do outro para me lembrar do que virá. Uma não existe sem a outra, e eu não existo sem as duas. Ter consciência de minhas fraquezas sustenta minhas qualidades. Sou livre para ser quem eu quiser, sou inteiramente minha. Sem os meios – e as metades – para justificarem meu final feliz.

Via: Bendita Cuca