Jovem amamenta com um seio após vencer dois cânceres: ‘Queria ser mãe’

Priscila, Pedro e Ricardo, na festa de um ano do menino (Foto: Arquivo Pessoal)
A vontade de colocar silicone nos seios fez uma jovem de Santos, no litoral de São Paulo, descobrir um câncer de mama. Priscila Morelli, de 29 anos, realizava os exames médicos pré-operatórios quando um dos laudos apontou um tumor maligno de 4,5 centímetros na mama direita da dentista.
Era apenas o começo da história de luta de Priscila, que superou a doença, descobriu um outro câncer que também foi vencido e, hoje, é mãe e amamenta o próprio filho com apenas um dos seios, já que o outro precisou ser removido.
“Eu não tinha sido mãe ainda. O chão ficou preto. Eu fiquei desesperada. A primeira ideia que passa pela cabeça é que você vai morrer. Nessa sala que estou hoje é que recebi a notícia. O médico falou que eu ia fazer a quimioterapia e depois a mastectomia, a retirada completa da mama”, conta ela, dentro de uma sala do setor de oncologia do Hospital Ana Costa, em Santos.
Priscila iniciou o tratamento, mas não parou sua vida profissional e pessoal. Investiu na alimentação, teve apoio de psicólogos, médicos e da família. Passou por enjôos e falta de apetite. Ela também diminuiu o ritmo do trabalho e ficou afastada por algum tempo. A pior parte foi enfrentar a queda dos cabelos.
“É um marco. Teve uma hora que ele começou a cair, um dia antes do casamento da minha amiga. A cabeça doía um pouco. Depois do casamento, eu raspei, foi um alivio. Comprei uma peruca. No começo, não queria assumir, não queria que as pessoas ficassem me olhando, sentissem pena de mim. Pensava que ia melhorar, que era uma fase” relata.
Priscila retirou toda a mama direita e, na mesma cirurgia, reconstruiu o seio. Em seguida, passou por 28 sessões de radioterapia. Ela tentava seguir todas as orientações para não sentir tanto os efeitos colaterais. Passada a fase mais crítica, a jovem continuou fazendo exames constantemente.
“A cada quatro meses a gente repetia os exames. No segundo check-up, oito meses depois, ela voltou com uma tomografia de tórax e apareceu um nódulo pulmonar. A gente pegou muito cedo o nódulo, estava pequenininho. Logo fizemos o diagnóstico, era no pulmão direito”, explica a médica oncologista Ticila Peixoto Melo, que acompanhou o caso.
“Da primeira vez, depois de dois ou três dias, baixou a adrenalina. Pensei em tantas mulheres que ficam boas e que eu iria ficar curada também. Na segunda vez, vem aquele monstro quando se fala em metástase. Eu pensei: agora eu morro. Eu não queria fazer quimioterapia, queria desistir. Foi um baque. Eu não sabia o que fazer, o que pensar, mas eu cai no tratamento de novo”, lembra Priscila.
A jovem entrou na sala de cirurgia pela segunda vez e o tumor no pulmão direito foi retirado. Depois, fez quimioterapia a cada quinze dias. Não ficou careca porque o tratamento era diferente, mas o ritmo do crescimento do cabelo diminuiu. “Dessa vez, meu medo era de não poder engravidar e ter filhos. Minha irmã se propôs a ser barriga de aluguel, caso precisasse um dia”, revela.
Priscila não se deixou abater e seguiu a risca o tratamento e não desistiu. “Eu queria ficar boa, não queria mais passar por aquele tratamento. Todo dia eu pensava que era menos um dia daquilo. Eu queria ficar boa, queria viver. Durante o tratamento, eu agradecia um dia lindo de sol. Eu sabia que eu precisava ficar bem para tudo fluir”, diz. Logo, Priscila ficou curada e continuou apenas fazendo os exames de acompanhamento, a cada quatro meses.
Na quimioterapia de pulmão, ela conheceu Ricardo Firmino. Ele trabalhava com a irmã dela, saíram algumas vezes e começaram a namorar. Após um ano, resolveram morar juntos. Em 2015, veio mais uma vez uma notícia inesperada para Priscila, mas muito desejada. Ela estava grávida.
“Não foi bem planejado, mas eu queria ser mãe. Antes de engravidar eu fiz um super check-up. Eu tinha medo de não conseguir engravidar depois das quimioterapias porque eu fiz muitas. Às vezes, há uma recidiva no meio da gravidez. A primeira coisa que você pensa é que está bem, está estável, mas sempre tem o medo de voltar alguma coisa”.
A oncologista Ticila explica que mulheres que tiveram câncer de mama podem voltar a apresentar a doença durante a gestação. Neste caso, é preciso reavaliar junto com o obstetra qual o melhor caminho. Há possibilidade de aguardar uma fase da gestação até que o bebê possa ser retirado em segurança ou, então, iniciar um tratamento contra o câncer durante o período de gravidez, utilizando medicamentos que não alteram na formação fetal.
“Durante a gravidez, tem um aumento expressivo de hormônios como estrógeno, progesterona, que são hormônios que também alimentam essa parte do câncer de mama. No caso da Priscila, ela ficou em acompanhamento. Alguns exames não davam para fazer por causa da gestação. O medo que ela tinha a gente também teve. Todos os exames que ela fez antes da gravidez estavam normais e durante também. Graças a Deus, deu tudo certo”, relembra a médica.
Pedro nasceu saudável, no dia 25 de setembro de 2015, para a alegria do casal e de todos da família que vivenciaram a luta dela contra o câncer. Priscila também se tornou uma mãe especial. Amamentar com apenas um seio não é a realidade da maioria das progenitoras. Mas, só ela, que desejava tanto ter um bebê, poderia assumir esse papel de forma tão natural. “Eu não tenho problema com a amamentação. Eu amamento normal. Já levei Pedro no médico e está tudo bem, ele é um bebê muito saudável”, contou.
Para a médica, Priscila é um exemplo. “São poucos os casos de mulheres mais jovens com câncer de mama. Às vezes, as pessoas, por causa da metástase, acham que a vida acabou. É importante para as pessoas se inspirarem nela”, explica Ticila.
Agora, com 34 anos de idade, a paciente volta ao hospital Ana Costa, onde diversas vezes recebeu noticias ruins, viveu momentos de tensão e sofrimento nos corredores.
Agora, ela volta para continuar realizando exames freqüentemente e contar para as médicas as novidades sobre o filho, que acabou de completar um ano. Priscila relembra tudo que viveu em pouco tempo e tem certeza que a fé foi sua principal aliada na batalha pela vida.
“A gente aprende a conviver com as dificuldades. A gente precisa levantar a cabeça e pensar que temos que fazer o isso (tratamento) para ficar boa. Quimioterapia, ficar enjoada, perder a fome, perder o cabelo. Na hora a gente acha que não vai voltar nada ao normal, mas depois passa.
Eu não sei exatamente o que mudou na minha vida. Sei que eu sou uma pessoa que tem muito mais fé em tudo. Acredito que aliei algumas coisas, consegui ser racional em alguns momentos e ir sempre rezando pedindo e agradecendo.
O espiritual dá aquela força para passar por aqueles momentos difíceis. Eu já realizei meu sonho, de ter meu filho”, finaliza.
Fonte: G1