Há tempos não me via com alguém que eu prometi pra mim mesmo que não deixaria ficar mais por perto.

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É uma sensação conhecida, quase igual quando você, depois de bons anos afastado, se encontra com aquele seu velho amigo de infância. Mesmo que tenham se passado décadas, cá estão vocês, conversando e compartilhando momentos como se nada houvesse mudado ou a distância nunca houvesse existido. Eu tive um desses reencontros hoje mais cedo. 

Há tempos não me via com alguém que eu prometi pra mim mesmo que não deixaria ficar mais por perto. Mas se tem algo que ouvi hoje é que não sou bom em cumprir promessas, logo, dizer que não a veria novamente, mesmo sendo essa a minha maior vontade, foi quase que dá boca pra fora. Ela estava exatamente com a mesma aparência de antes. Os mesmos olhos pretos e fundos que me fitavam de mil maneiras há algum tempo estavam ali, como dois faróis negros fixados em um rosto de pele alva e macia. Suas mãos magras e finas repousavam-se sobre minhas costas, fechando todo meu corpo em um abraço fúnebre e discreto. 

Quem entrasse naquele quarto poderia claramente ouvir o som do nosso silêncio cortando o ar, como se fosse navalha afiada. Nós nos sentamos em minha cama e mesmo sem proferir uma palavra ao outro, nos entendíamos. Nós sabíamos o que o outro estava pensando e, ao julgar pelo peso que se fazia presente em meu peito, eu sabia exatamente o que ela queria dizer. Ela quis me falar que nunca fora embora de fato. 

Que ela apenas se manteve ali, fazendo companhia a outrem, apenas esperando o momento em que esse mesmo outro abriria em mim o espaço necessário para que ela voltasse a se sentar exatamente no mesmo lugar do qual fora destronada. Mas quem disse que ela se contenta com pouco? Por mais que seja uma amante incondicional da solidão, ela odeia se ver só. Gosta da presença de suas amigas, sensações tão problemáticas quanto ela. E eu? Bem, eu me mantenho aqui, preso a um harém de mulheres belas, sinuosas, maldosas e de conduta tortuosa. Um harém onde cada uma em sua vez, cada uma dessas tão desprezadas e, quase sempre, desprezíveis mulheres, me tiram pra dançar. 

Embalamos juntos os mais diversos ritmos e mesmo que pondo meus pés em carne viva, me recusam o pedido para que eu pare de dançar. É um baile de muitos, um baile em que meu peito e mente são feitos de salão. É um baile onde eu faço de mim, pista de dança. Eu danço sobre o que sinto e sob o que elas me fazem sentir. E o motivo pelo qual o baile nunca há de ter fim? Porque eu não sei tirar dali, o maestro que rege a orquestra. Uma lembrança dentro da lembrança que não me deixa esquecer jamais que a dor é amiga antiga.

Bruno Campos (via: brunocamppos)