PRA GENTE NUNCA DEIXAR DE SER

VIA REPRODUÇÃO
Enquanto te escrevo sinto um nó afogar as nossas lembranças bem no meio da minha garganta, como a gente termina uma história que ainda tem várias páginas esperando para serem escritas? Como a gente segue em frente quando a vontade é caminhar lado a lado?
Parece que foi ontem que a gente se conheceu, quando fecho os olhos ainda posso ver aquelas duas crianças tentando entender o que é o amor. E o que é? Quem sabe? Amor é o tipo de coisa que a gente sente sem explicar, e a gente sentia. Muito. E eu ainda sinto, juro. Você me olhava com cara de tédio e eu disfarçava a raiva com um sorriso amarelo, quem era aquele rapaz que me tirava do sério e do eixo? Às vezes a gente não quer enxergar o que tá bem na nossa frente, mas é que amar requer coragem e pouco a pouco a gente teve. Teve altos e baixos, também. Teve encontro e desencontro, várias vezes. Teve promessas e teve partidas. Teve retorno, e teve a gente, o tempo todo.


Acontece que depois que eu senti pela primeira vez o sabor da sua boca, as outras amargaram. Teu gosto não enjoa, é picolé de morango no verão e fondue de chocolate no inverno. É cerveja, vinho e água. É paixão, tesão e amor. Meu amor. A gente cresceu um com o outro, um pelo outro. E a vontade de ser pra sempre nunca deixou de crescer na gente.
Não tenho certeza se acredito nesse lance de almas gêmeas, sempre que amor vira ciências eu coloco o pé atrás, mas se algo assim realmente existe nós somos o mais próximo do que deve ser. A gente se completa em tudo. Você é ponto final, eu sou reticências, você é verbo, eu sou adjetivo, você é quase, eu sou tudo, você é hoje, eu sou ontem, você é sol, eu sou lua. E eram as nossas diferenças que igualavam nossos corações. 


Foi de um dia pro outro que um furacão arrombou nossa porta e colocou nossas vidas de ponta cabeça. Tudo saiu do lugar. Os móveis, as promessas, o futuro e até a gente. E eu, que jurava casamento, perdi a sua mão. E tudo escureceu, sabe? O inverno chegou no meio do verão e não quis mais ir embora, começou a chover uma chuva doída aqui dentro de mim e eu não soube o que fazer. A vida começou a passar em câmera lenta diante dos meus olhos e eu não consegui lutar, tava cansada da tempestade, tava assustada e sozinha e eu só queria você. Teve até um dia que a casa lotou e eu coloquei o meu melhor vestido, liguei o som e lotei a geladeira de cerveja, depois sentei no sofá e fiquei vendo aquela gente toda dançando e tomei um porre de saudades, no dia seguinte a ressaca gritava seu nome. 


Não se cura coração partido com rímel a prova d'água, quem eu tava tentando enganar? No meio daquela gente toda eu só conseguia enxergar a sua ausência. Tive tanto medo quando eu percebi que mesmo com a casa lotada eu tava sozinha. Senti vontade de te ligar chorando baixinho e implorar pra você voltar. Mas eu não podia, não era justo, quero que você venha por vontade própria e pra ficar.


Quero que você venha se a saudades doer ai dentro tanto quanto ela dói aqui. Quero que você venha se ainda se lembrar dos nomes que a gente ia dar pros nossos filhos. Quero que você venha se a tua mão pedir pela minha. Quero que você venha porque o destino já armou umas boas pra que a gente provasse que merecia estar junto. E a gente merece porque a gente já foi tanta coisa.
Já foi amigo. Já foi paixão. Já foi briga. Já foi caso. Já foi fogo e já foi chuva. Já foi birra. Já foi mais. Já foi menos. Já foi aventura. Já foi choro. Já foi risada. Já foi tesão. Já foi carinho. Já foi namoro. 
Só nunca deixamos de ser amor. 


Fonte: Gabriela Freitas