Você curou minhas feridas, mesmo precisando deixar outras abertas com sua partida.

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É que eu ainda me lembro quando em ti eu me amarrava. Me prendia como criança pequena que com medo da multidão se agarra à perna do pai. Lembro da época em que por mais bonito que fosse, eu evitava de sermos laço. Laço é frágil. Laço se desfaz ao toque de qualquer estranho metido a curioso. Eu ainda me lembro. Me lembro da época em que eu me amarrava ao teu sorriso largo e só de vê-lo em tua face, em meu rosto surgia um riso bobo. 

Lembro-me das vezes em que em teus ombros pude secar minhas lágrimas e das vezes em que pude derramá-las sem preocupações, medos ou receios. Não havia julgamento. Havia carinho. Havia amor. Havia compreensão. Lembro-me de tudo. De como eu imaginava a vida ao seu lado, fazendo de nós um casal de super heróis capazes de enfrentar o mundo lá fora, afinal, nossa força estava ao nosso lado, estava no outro. Eu me lembro. Me lembro como se fosse ontem das nossas madrugadas a dentro conversando e de como eu me sentia completo. Mesmo não estando tão longe em termos de tempo, é uma sensação que parece que há anos eu não conheço mais. Mas ainda sobra um pouco. Sobra o suficiente para que eu me lembre de como eu me sentia seguro com você. De como eu me sentia protegido e mais do que isso, me lembro de como eu me sentia forte o suficiente pra cuidar, proteger de volta. Você curou minhas feridas, mesmo precisando deixar outras abertas com sua partida. Você direcionou meus passos e derrubou minhas muralhas há tempos tão impenetráveis. Você fez de mim novo homem e como se do barro eu fosse moldado, você me (re)criou. Hoje sou corda solta. Tento fazer nó em tudo quanto é ponta que me surge pelo caminho, apenas por medo de que o vento me leve, me leve da mesma forma que te levou. 

Tento me prender, fazer de mim nó cego. Me prender em alguma razão que me faça querer continuar, mas é inevitável não conseguir. É como se não houvesse encaixe ou se quer superfície na qual meu nó caiba. É uma tentativa um tanto quanto esforçada de me amarrar, para cinco minutos depois, que seja, eu me ver deslizando para fora dali, como se em lugar algum eu viesse a caber. Hoje eu vejo o quanto ser corda solta é ruim. Por mais que eu me ocupe, tente me abarrotar de coisas, afazeres e pessoas, sinto como se eu estivesse em quarto escuro sem tuas pegadas a brilhar no chão me mostrando o caminho. Me sinto perdido em uma escuridão cultivada dentro de mim, escuridão essa que antes fora fitada facilmente pelo brilho que você emanava do olhar. É uma sensação de estar perdido. Perdido no mundo e principalmente, perdido dentro de mim. Não consigo encontrar em nada virtude pra ser um ser. Um ser que ainda chama-se de vivo. Perdi a graça. Como se meus olhos fossem diminuindo a saturação vista nos objetos até que por completo eu só conseguisse reconhecer o preto, o branco e o cinza. 

Não há cor. Não há pra onde ir. As paredes ao meu redor vão se fechando cada vez mais. Se fechando de forma a me sufocar, como mãos ao redor do meu pescoço, ou mesmo corda posta em forca por mim. Em ato de desespero eu pulo. Pulo pra uma imensidão vazia que não cabe nada além de mim e de todos meus problemas e fantasmas. Permito que os demônios tão bem nutridos em meu peito o rasguem e batam asas. Permito que enfinquem suas garras em meus ombros e me carreguem céu acima, o mais alto possível, pra só assim minha queda ser inevitável. Para só assim, minha queda se tornar um caminho sem volta. Talvez eu me entregue ao vento. Talvez eu deixe de me prender às coisas. Talvez eu aceite a minha condição de corda solta e não lute mais contra o tempo. Talvez, mas só talvez eu não só deixe, como anseie para que o tempo desfaça meu entrelaçar e que como poeira, eu possa sumir. Sumir na vastidão que é sentir falta de ti e desse nó que já foi um dia um nó de nós.

Bruno Campos (via: brunocamppos)