IDAS, VINDAS E OS DESENCONTROS DA VIDA

Todo domingo à noite, antes de dormir, preparava a caixa de lenço para assistir ao programa Chegadas e Partidas da Astrid Fontenelle na TV a cabo com os causos dos aeroportos. As histórias de idas e vindas sempre me chamaram a atenção. Tanta coisa escondida no coração alheio. Pousa uma esperança, decola um sonho. Quem irá encurtar a solução que bombeia as ideias e destrói a razão?
Desde a época da faculdade observava as pessoas nas rodoviárias com negligente atenção: alguns semblantes fechados, crianças pulando as malas como obstáculos olímpicos, preocupações silenciosas perdidas nos horizontes, abraços apertados desviando das fumaças indesejadas dos fumantes inveterados, mochilas murchas de esperanças nebulosas, bolsos vazios à procura do primeiro emprego, ombros cansados sob o olhar perdido na janela, largos beijos de eu te amo e até logo, meu amor. Mosaico de emoções ao vivo e disponível a cada dez minutos na plataforma com embarque imediato rumo a qualquer paisagem com escala a lugar nenhum.
Os desencontros são maiores que as possibilidades de acertos na vida. A precisão requer lapidação suíça. Atingir o alvo não depende, muitas vezes, apenas de uma pessoa. O complô de interesses precisa ser ensaiado, mesmo que mal planejado e a busca pelo caminho de tijolos amarelos tem que ser mútua. Caso contrário, “Goodbye Yellow Brick Road”, já dizia Sir Elton John.
Lembro-me de um casal na faculdade. Namoraram boa parte do curso. Depois da formatura, foram trabalhar nas respectivas cidades de origem, distantes centenas de quilômetros uma da outra. Não existia internet e nem smartphone na época; só carta, papel, caneta, correio tradicional e telefone a cobrar. No início carta daqui, correio de lá, alô, eu liguei, não respondi, você ligou, você está?
Tentaram se encontrar nos finais de semana, horas de rodoviária em ônibus sem ar-condicionado, as cartas rareando, as férias se espichando e os versos não mais rimando. O namoro desandou, ela se enrabichou de outro, noivou, mas ele não a tirava do cerne da alma por nada. Um belo dia cansou de esperar o tempo e a razão. Chega, disse pra si mesmo. Foi até a casa dela. Bateu na porta, o pai abriu e foi escutando.
– Boa noite. Como está o senhor? Desculpe eu vir assim de supetão, mas não consigo viver esse desencontro de ideias com o meu coração. Preciso falar com sua filha sem falta, hoje, domingo à noite, de qualquer jeito e resolver nossas vidas. Ela está?
O pai, com toda educação e admiração que tinha pelo rapaz, nada falou. Apenas o convidou a entrar. Precisavam tirar uma prosa. Antes que a conversa tivesse início, o rapaz foi entrando e caminhando e notando e reparando e tropeçando e naufragando e desfazendo-se em vários papéis de presente do casamento de véspera ainda largados pelo chão.
Chegara a hora do tempo para a razão.